A penetração da palavra
do trauma à inscrição simbólica na transferência
DOI:
https://doi.org/10.60106/rsbppa.v27i2.935Palavras-chave:
Inscrição simbólica, Sexualidade, TransferênciaResumo
Este trabalho propõe um percurso pelo campo da psicanálise a partir da observação da sexualidade como traumática e da transferência, tomando como eixo a potência penetrante da palavra em transferência que atravessa e inscreve. Partindo dos primeiros escritos de Freud sobre a etiologia da histeria até as elaborações mais tardias sobre o trauma como aquilo que irrompe fora do tempo e escapa à significação, seguimos com Lacan na aposta de que o sintoma é também uma linguagem, e que é na escuta do analista que ele pode ser transmutado. A travessia de Emma, minha primeira analisanda, é a narrativa que sustenta e encarna este percurso teórico. Trabalhadora da linguagem, conhecia a anatomia do som, mas não havia sido ouvida na sua linguagem inconsciente. Desejava um filho, mas ainda não havia parido a si mesma, seu corpo, tal como o trauma, aguardava por uma inscrição simbólica. A análise abriu caminho para que o desejo encontrasse um nome, para que o tempo deixasse de ser apenas Cronos e se abrisse a Aion. A sexualidade, antes vivida como repetição masoquista, começou a se desenhar como criação. A teoria freudiana da sexualidade infantil e os três tempos do Édipo em Freud e Lacan servem como bússolas nessa travessia. O que antes era sintoma tornou-se fal(t)a, o corpo pôde desejar, e o desejo fecundou. Mais que gerar um filho, Emma gerou-se como sujeito. A minha Emma, assim como a Emma freudiana, engravidou por uma palavra: foi pela via da transferência e do dizer que seu ventre psíquico pôde se tornar fértil. A eficácia simbólica encontrou morada em seu inconsciente e, ali, gestou outra forma de ser. Este trabalho, portanto, é também uma defesa da eficácia simbólica da palavra na clínica contemporânea. Num tempo de imagens, medicalização, congelamento de óvulos e diagnósticos, reafirmo o lugar da escuta do desejo, da sexualidade que queima e da metáfora como ato criador, capaz de fazer nascer não só filhos, mas sujeitos.
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