O trauma em Ferenczi — A escuta psicanalítica além do princípio da pedagogia
DOI:
https://doi.org/10.60106/rsbppa.v28i1.945Palavras-chave:
Clínica do trauma, Confusão de línguas, Desmentido, Empatia, Escuta psicanalítica, Relações primárias, Ternura, Trauma, TraumagêneseResumo
O presente trabalho examina a evolução do pensamento de Sándor Ferenczi acerca do trauma, destacando sua contribuição para a constituição de uma clínica psicanalítica fundada na escuta, na empatia e no reconhecimento da experiência traumática. A partir de um percurso por textos fundamentais de sua obra, especialmente aqueles pertencentes à chamada “virada de 1928”, evidencia-se o deslocamento teórico realizado por Ferenczi em relação à centralidade da fantasia inconsciente, recolocando a realidade das relações precoces e a presença do adulto no núcleo da traumatogênese. O autor compreende o trauma como um fenômeno relacional, marcado pela intrusão, pela violência e, sobretudo, pelo desmentido da experiência infantil. Conceitos como confusão de línguas, identificação com o agressor, clivagem narcísica e trauma da incredulidade revelam a profundidade de sua reflexão sobre os efeitos psíquicos do sofrimento não reconhecido. Paralelamente, Ferenczi promove uma revisão da técnica analítica clássica ao enfatizar o tato, a autenticidade, a mutualidade e a utilização da contratransferência como instrumento clínico. O estudo destaca ainda a atualidade de seu legado, evidenciada na influência exercida sobre autores como Winnicott, Balint, Bion e Kohut, bem como na compreensão contemporânea dos traumas precoces, dos estados-limite e das falhas ambientais. Conclui-se que a obra ferencziana ultrapassa os limites de uma teoria do trauma para constituir uma ética da escuta, comprometida com o acolhimento do sofrimento, o reconhecimento da dor e a reparação simbólica das experiências que permaneceram sem testemunho.
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